A história adora uma boa tragédia. Aníbal cruzando os Alpes é um deles.
Era 218 AC. Ele trouxe consigo trinta e sete elefantes de guerra. Talvez trinta e oito, ninguém tem certeza. Ele queria invadir a Itália. A República Romana não recebia bem os visitantes de Cartago. Especialmente aqueles com mamíferos gigantes e furiosos caminhando pela neve.
Durante séculos discutimos sobre a rota. Qual passe? O Col du Clapier? O Col de Mont Cenis? Os estudiosos estão presos nisso há milênios. Eles leram textos antigos de Políbio e Tito Lívio, homens que escreveram os relatos anos — às vezes séculos — depois do ocorrido. Não há nenhuma prova física deixada no solo. Nenhuma pegada de elefante preservada no gelo. Apenas nomes de lugares como Skaras e Allobroges que os historiadores tentam comparar com mapas modernos.
Um novo estudo muda as probabilidades. Ou pelo menos, inclina-os fortemente.
“A questão da rota exata de Aníbal tem sido debatida há gerações.” — Dr. Emílio Berti
É publicado no PNAS hoje. Uma equipe de Oxford e de duas universidades alemãs analisou os custos de energia. Não apenas para os soldados, mas para os animais. Eles usaram dados de elevação. Eles usaram modelos de elefantes africanos modernos para estimar a queima de calorias. Queriam saber: qual rota economizou mais energia para quarenta mil homens, sete mil cavalos e aqueles elefantes?
A resposta aponta para o Col de la Traversette.
Está no alto. Nove mil seiscentos e sessenta e nove pés. Sente-se bem na fronteira entre a Itália e a França. Não é fácil. É brutal. Mas em comparação com outras opções? Foi a melhor opção brutal.
Por que isso importa? Porque Tito Lívio escreveu que Aníbal fez a travessia em dezesseis dias. Isso parece rápido. Era. Mas a campanha lhe custou caro. Ele perdeu cerca de vinte mil homens. Cartago acabou perdendo a guerra também. Roma os expulsou do Mediterrâneo.
Costumávamos pensar que ele pegou o Col du Clapier. É mais baixo. Oito mil pés. Mas a matemática diz que não. Viajar via Montgenèvre custaria onze por cento mais energia. Clapier precisava de dezesseis por cento a mais. Mont Cenis exigia dezenove por cento mais. Traversette vence por padrão. Foi o mais curto. O mais eficiente.
Pense nisso.
Se fizessem o passe Traversette, os soldados perdiam dezenove por cento de sua gordura corporal. Apenas subindo e passando por aquelas montanhas. Não admira que tantos tenham morrido mais tarde. A fome é um assassino silencioso. A exaustão faz você largar o escudo.
Aqui está a parte estranha. Os elefantes se saíram melhor.
Os modelos mostram que os gigantes perderam apenas 4% da sua gordura. Quatro. Eles estavam caminhando em uma reserva muito maior. Isso explica por que tantos deles sobreviveram. Sempre os imaginamos caindo, escorregando, morrendo congelados. Talvez não. Na verdade, eles estavam bem. Relativamente falando.
Então, por que trazê-los de qualquer maneira?
Foi um valor de choque? Para aterrorizar a infantaria romana que nunca tinha visto uma fera tão grande? Ou Aníbal esperava que os celtas do norte da Itália vissem os elefantes e decidissem juntar-se à sua causa? Talvez ele pensasse que a maravilha seria moeda suficiente para comprar recrutas. Nós não sabemos. Ele não fala nada. Somente os vencedores escrevem a história. Ou as pessoas contratadas pelos vencedores.
A nova análise não resolve tudo. Ainda há ambiguidade. Os mapas de 200 a.C. parecem diferentes dos mapas do Google Earth. Os nomes dos lugares mudam. Mas é difícil contestar o argumento do custo da energia. A biologia não mente. As reservas de gordura acabam. Os músculos falham.
Hannibal escolheu um caminho que economizava calorias. Ele trocou a dificuldade do terreno pela eficiência energética. Uma aposta.
Não salvou Cartago. Mas isso fez com que o seu exército ultrapassasse as montanhas. Por enquanto, até que alguma nova descoberta arqueológica nos separe, Traversette é o vencedor.
Foi a jogada mais inteligente da história? Ou apenas o único que os deixou de pé?
Provavelmente uma mistura.
