Duas aranhas. O mesmo sorriso. Conexão zero.

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Eles parecem idênticos. Esse é o truque.

O Theridion grallator, mais conhecido como aranha de cara feliz, é a estrela da ecologia havaiana desde 1900. Minúsculo, verde neon e sorrindo por entre as folhas, era considerado um residente solitário da ilha. Uma ilha biogeográfica única. Até o ano passado.

Agora sabemos que existe um clone. Não é um clone, estritamente falando, mas uma imagem espelhada encontrada a milhares de quilômetros de distância, nas encostas íngremes e frias do Himalaia de Uttarakhand.

Os cientistas deram-lhe um nome adequado: Theridion Himalayans. Ou, para o público não técnico, a aranha de cara feliz do Himalaia.

A descoberta começou com uma distração.

Em 2023, investigadores do Instituto de Investigação Florestal da Índia estiveram no Himalaia. O trabalho deles era chato, ou assim pensavam: catalogar formigas. As formigas são pequenas. Eles se perdem na vegetação rasteira. Mas de vez em quando, algo com oito pernas interrompia a contagem.

Devi Priyadarshini, bióloga do Museu Regional de História Natural, lembra-se do momento em que o trabalho parou e o choque se instalou. Seu colega, Ashirwad Tripathi, enviou-lhe uma foto. Uma aranha agarrada a uma folha de Daphniphyllum. Alta altitude. Remoto.

Priyadarshini congelou.

Ela havia estudado o espécime havaiano durante seu mestrado. Os padrões eram inconfundíveis. Os pontos sorridentes. As listras. Ela soube imediatamente que eles haviam ganhado um jackpot.

Nos meses seguintes, Tripadi coletou mais trinta e duas amostras. Todos indivíduos distintos, mas todos compartilhando aquela coloração bizarra e alegre. Os morfos variam, obviamente, mas a marca é a mesma.

O trabalho de laboratório confirmou o que os olhos viram: estas não são as aranhas havaianas que de alguma forma viajaram. O sequenciamento genético mostrou diferença de 8,5%. Isso é significativo. O suficiente para dizer que eles evoluíram de forma totalmente independente. Uma linhagem numa cadeia vulcânica isolada, outra no ar pesado das montanhas. Mesmo projeto, projetos diferentes.

Tripathi escolheu o nome da espécie himalayans como uma homenagem. Uma homenagem à cordilheira que guarda o norte e esconde bem os seus segredos.

Então por que o rosto?

Ninguém sabe ao certo. Os corpos verdes misturam-se com as folhas. Os rostos? Talvez. Provavelmente. Priyadarshini chama isso de “mistério genético mais profundo”.

Porém, existe um link mais estranho. Uma coincidência que desafia a lógica simples.

Ambas as espécies de aranhas adoram gengibre. Não qualquer gengibre, mas do mesmo tipo. Exceto que o gengibre não pertence ao Havaí. Lá é invasivo. Como uma antiga linhagem de aracnídeos adquiriu o gosto por uma planta que nem existia originalmente em sua área de vida?

Priyadarshini acha que a aranha do Himalaia pode ser uma prima mais velha. Mais velho. A fonte original. A versão havaiana do descendente que perdeu o mapa mas manteve o visual.

Parece um exagero.

Ela chama isso de uma reivindicação alta. Mas eles estão voltando. A caça continua. Faltam links para encontrar. Conexões para mapear.

Como a evolução continua repetindo sua piada favorita através do oceano?

Por enquanto só temos as fotos. Sorrisos na grama. Sorrisos nas rochas.

Quem está olhando para quem?