O órgão no intestino
Décadas de confusão. Esse é o registro científico sobre a navegação por aves. Sabíamos que os pombos usavam o campo magnético da Terra para voar para casa. Não sabíamos como. O mecanismo era invisível. Uma caixa preta.
Até agora.
Um novo estudo na Science aponta para uma situação surpreendentemente humilde. O fígado. Especificamente, células imunológicas dentro dele. Estes são chamados macrófagos. Eles ficam lá para comer glóbulos vermelhos velhos. Esse trabalho acumula ferro em seus sistemas.
O ferro cria magnetismo.
Não apenas qualquer magnetismo, mas um tipo específico. Os pesquisadores chamam isso de superparamagnetismo. Isso acontece em nanoescala. Partículas minúsculas ficam magnetizadas quando o campo as atinge.
“Quando os pombos voam”, disse Clivia Lisowski, pesquisadora da Universidade de Bonn, à Popular Science. “As nanopartículas se alinham… elas ficam ‘magnetizadas’.”
Ela diz que o pássaro basicamente transforma seu fígado em um sensor. Como uma bússola. Enterrado lá dentro.
Perdido nas Nuvens
Como eles provaram isso?
Ulf Wiedwald, especialista em nanociências da Universidade de Duisburg-Essen, liderou a equipe. Ele imaginou que o fígado ou o baço eram os principais candidatos. Por que? Esses órgãos armazenam mais ferro. Acontece que ele estava certo sobre o fígado. Seu sinal magnético era significativamente mais alto do que qualquer outro tecido verificado.
Eles não pararam por aí. Eles se concentraram nos próprios macrófagos. Então eles colocaram os pombos à prova.
Treinamento de retorno padrão. Solte as aves a 20 quilômetros de seu aviário na Alemanha. Mande-os para casa.
Foi aqui que ficou estranho.
Se o céu estivesse ensolarado? Sem problemas. Os pássaros encontraram casa. Provavelmente usando o sol. Procedimento padrão para navegação aviária.
Se o céu estivesse nublado?
Caos.
Os pombos que tiveram seus macrófagos magnéticos removidos se perderam. Completamente desorientado. Eles confiaram no campo magnético quando as pistas visuais falharam. Quando você remove aquela linha celular específica com alto teor de ferro, você os cega para o mapa magnético.
Mais do que apenas pássaros
Por que isso é importante fora das corridas de columbolos?
Lisowski vê uma aplicação mais ampla. Talvez tubarões. Morcegos. Aves migrando na escuridão total à noite. O mecanismo ferrimagnético poderia explicar como qualquer criatura vê no espectro magnético escuro. Isso abre uma porta para a compreensão da navegação entre múltiplas espécies.
Mas olhe mais fundo. Na própria biologia.
Os macrófagos não são apenas esponjas de ferro. Eles estão próximos às fibras nervosas. Muito perto. Isto sugere que os dados magnéticos têm uma estrada direta para o cérebro. A informação não está presa no intestino. Ele sobe.
Também muda a forma como vemos o sistema imunológico. Lisowski chama isso de “uma nova camada completa” no conceito de imuno-sensação. O sistema imunológico se defende contra patógenos. Cura feridas. Para fazer isso, ele sente o ambiente.
Aparentemente, “meio ambiente” inclui o magnetismo planetário.
Quem diria que o intestino sentiu o giro da Terra? Provavelmente não. A ciência certamente não o fez, não até agora.
