A adaga parece cerimonial. Ouro. Lápis-lazúli. Lindo. Encontrado no túmulo da Princesa Ita em Dahshur, perto do Cairo. Tem cerca de 4.000 anos, datando de aproximadamente 1.900 aC.
Os historiadores sempre chamaram isso de adereço. Um presente simbólico para a vida após a morte. Não é uma arma.
Um novo estudo diz o contrário.
Zeinab Hashesh, da Universidade Beni-Suef, liderou um reexame de restos mortais que foram amplamente ignorados por mais de um século. O objetivo? Para ler os próprios ossos. Para ver se as mulheres enterradas com esses objetos brilhantes realmente os usaram.
“As descobertas desafiam a visão tradicional de que as mulheres da elite eram passivas e sedentárias. Elas eram treinadas. Poderosas.”
Isso muda o roteiro.
Como os ossos revelam a vida do guerreiro
A história começa no final da década de 1880. O arqueólogo francês Jacques de Morgan desenterra o local. Ele olha para o rei Hor. Ele olha brevemente para a princesa Noub-Hotep. Mas ele ignora a Princesa Ita. E sua irmã Itaweret. E outra mulher cujo nome esquecemos.
Durante 130 anos, seus restos mortais ficaram em uma caixa. Então, em 2020, eles são encontrados no porão do Museu do Cairo. Redescoberto. Hashesh chama essa segunda chance de “osteobiografias” – histórias de vida contadas através dos ossos.
Ela olhou para os locais de fixação muscular. A forma como os ossos se curvam. Vestígios químicos.
A Princesa Ita mostra sinais de agarramento habitual. Fortes pontos de fixação nas mãos sugerem que ela segurava coisas pesadas como adagas ou maças. Muitas vezes. Duro.
A princesa Noub-Hotep é mais clara. Os ossos de suas mãos se curvam de maneira única. Hashesh chama isso de “aperto de arqueiro”. Você só consegue essa curva se puxar a corda do arco por muito tempo.
O corpo de Itaweret conta um tipo diferente de história. Ela teve um grande trauma nas costelas e nos pés. Alto impacto. Alto risco. Alguém que viveu perigosamente.
Por que os céticos veem o simbolismo
Sébastien Villotte, do CNRS francês, acha que precisamos desacelerar. Ele considera o estudo interessante, mas especula que a conclusão marcial ainda não é sólida o suficiente.
Flechas encontradas em túmulos não significam que a pessoa atirou nelas. Não automaticamente. Villotte quer mais dados. Especificamente, ele sugere comparar essas princesas com não-elites do mesmo período e região. Todos eles tinham dedos em arco? Ou é exclusivo da realeza?
“A evidência biomecânica é limitada”, diz Villotte. “Apresenta uma interpretação única sem reavaliação crítica.”
Justo.
Mas Hashesh recua. O ceticismo, argumenta ela, decorre de uma “tradição de longa data”. Essa tradição presumia que as armas nos túmulos femininos eram apenas votos para a vida após a morte. Simbólico.
Baseava-se em antigos estereótipos de gênero. A ideia de que as mulheres não eram guerreiras.
Essa visão está mudando. Ou talvez finalmente tenha alcançado os ossos.
O tribunal foi disciplinado. Essas mulheres não estavam sentadas em tronos esperando por resgate. Eles manuseavam metal. Eles puxaram cordas.
Qual é a aparência real de um dedo em arco sob um microscópio? Esse detalhe muda a história mais do que um punho dourado jamais poderia.
A resposta é complicada. E podemos estar apenas começando a lê-lo.




















