Durante décadas, a presença humana na órbita da Terra permaneceu limitada. Até recentemente, apenas alguns milhares de satélites orbitavam o planeta. Mas desde 2019, com o lançamento da constelação Starlink da SpaceX, essa realidade mudou fundamentalmente. A SpaceX já implantou mais de 10.000 satélites Starlink ativos – cerca de dois terços de todos os objetos atualmente orbitando a Terra. Este marco marca uma mudança dramática na forma como interagimos com o espaço, e os especialistas ainda estão se adaptando às implicações.
A escala do impacto do Starlink
A escala do Starlink não tem precedentes. O que começou como um projecto ambicioso para fornecer acesso global à Internet a partir do espaço tornou-se rapidamente numa força geopolítica. Atualmente, mais de 10 milhões de usuários dependem do Starlink, desde comunidades remotas até zonas de conflito como a Ucrânia. A SpaceX e seu CEO Elon Musk agora possuem a capacidade de controlar o acesso à Internet para regiões inteiras.
Este domínio não passou despercebido: concorrentes como o Kuiper da Amazon (com 200 satélites lançados de um total planeado de 7.500) e constelações apoiadas pelo governo chinês (Qianfan e Guowang visando 15.000 e 13.000 satélites, respetivamente) estão a correr para recuperar o atraso. No entanto, a SpaceX continua a ser a líder, aproveitando o seu foguetão reutilizável Falcon 9 para implantar satélites a uma taxa incomparável – até 60 por lançamento.
Prevenção de Colisões e Segurança Orbital
A manutenção desta vasta rede exige vigilância constante. Os satélites SpaceX evitam colisões de forma autônoma – realizando surpreendentes 300.000 manobras somente em 2025. Embora ainda não tenham ocorrido colisões, os especialistas temem que seja apenas uma questão de tempo, especialmente à medida que mais constelações entram em órbita. O risco de desencadear a síndrome de Kessler – uma reação em cadeia em cascata de detritos que tornam regiões da órbita inutilizáveis – continua a ser uma preocupação.
Apesar desses riscos, a SpaceX abordou alguns problemas, como o incidente de 2024, em que destroços de um satélite desorbitado pousaram em uma fazenda canadense. A empresa também identificou e corrigiu a causa da explosão de um satélite em órbita em 2025. No entanto, os efeitos a longo prazo da queima de milhares de satélites na atmosfera todos os dias permanecem desconhecidos.
O impacto na astronomia
A expansão das megaconstelações também coloca desafios significativos à astronomia. A interferência dos satélites já está perturbando as observações, obscurecendo os objetos celestes. Estudos sugerem que, com meio milhão de satélites em órbita, quase todas as imagens obtidas por telescópios terrestres ou espaciais seriam afetadas. Especialistas alertam que “não há lugar no céu que não tenha satélites”.
O futuro do tráfego espacial
O marco de 10.000 satélites da SpaceX é apenas o começo. A empresa planeja lançar mais um milhão de satélites para um novo centro de dados orbital de IA usando o foguete Starship. No total, mais de 1,7 milhão de satélites são propostos em todo o mundo.
Ainda não se sabe se a órbita da Terra pode sustentar este nível de tráfego. Alguns acreditam que milhões de satélites são viáveis, enquanto outros prevêem que as colisões se tornarão inevitáveis após 100.000. Como observa Victoria Samson, da Secure World Foundation: “Nunca teria pensado que teríamos constelações com milhares de satélites… Portanto, não quero dizer ‘nunca’”.
A órbita da Terra está a tornar-se cada vez mais congestionada e as consequências a longo prazo desta rápida expansão continuam por ver. A gestão deste crescente tráfego espacial será fundamental para garantir que o acesso orbital permaneça sustentável para as gerações futuras.
